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A saúde policial vai bem?




** Por João Carlos da Costa

A carreira policial é convidativa e atraente, mesmo com as dificuldades que a realidade da função apresenta. Filmes policiais e outras ações que envolvem polícia são motivos de incentivo para crianças e jovens que desejam entrar na área de segurança pública. Nem tanto pelas condições de trabalho ou salariais. A motivação das pessoas de bem nasce mais pela vontade de combater o mal e promover a paz e tranquilidade da população e para fazer da ficção, a eterna luta de “mocinhos” contra “bandidos”, uma realidade. Muitos, quando já estão na idade de prestar concursos com esse objetivo, preparam-se para manter o perfil atlético e saudável. A ansiedade às vezes é tanta que mesmo aqueles que não costumam praticar exercícios físicos com frequência, ao saberem da abertura de vagas para essa área vão a academias e outros espaços, visando os testes físicos costumeiramente postos como conteúdo dos editais, como parte da etapa de aprovação.

Passadas essas etapas, são realizadas outras mais importantes como a investigação de conduta, para avaliar a idoneidade, e os exames de saúde para avaliar a capacidade física e mental de cada candidato. As academias, nos cursos de formação, têm nos seus currículos de formação técnica profissional a preparação física de policiais durante todo esse período inicial da carreira. Ou seja, a pretensão de todo órgão de segurança é contratar pessoas que estejam bem física e mentalmente, em todos os aspectos, por isso tantas exigências rígidas.

Após as nomeações, os policiais são efetivamente designados para os trabalhos investigativos ou ostensivos, dependendo da carreira que escolheram nos âmbitos municipal, estadual ou federal.

A partir de então, começa uma nova vida. Bem diferente daquela esperada. Repleta de circunstâncias que levam ao estresse extremo, cada uma com as suas características, e que podem gerar doenças psicológicas como o desequilíbrio emocional, um dos principais fatores que reflete na desarmonia do lar e no ambiente de trabalho, através do comportamento, não raras vezes agressivo. Poucos conseguem ficar ilesos aos efeitos negativos que afetam profundamente sua vida profissional e familiar, diante do estresse ocasionado pelas constantes pressões da sociedade, que exige a garantia de um atendimento qualificado e eficaz às suas reivindicações e da necessidade de prestar um serviço adequado sem ter as condições físicas condizentes para isso. O resultado, com isso é que, aquele profissional antes motivado e inspirado, depois de algum tempo já não tem estrutura física, psicológica e não mantém um comportamento metódico em relação aos cuidados com a saúde, entre outros. Aos poucos é acometido pelo sedentarismo, um dos principais causadores das doenças cardíacas e mentais, por não praticar mais exercícios e ter alimentações irregulares devido os plantões e horários irregulares, totalmente fora dos padrões exigidos para uma boa qualidade de vida e, fisicamente despreparados para a perseguição de marginais por causa de problemas principalmente de obesidade, em alguns casos, mórbida e da inanição física e mental.

Para oportunizar e incentivar especialmente os homens, que são mais arredios em relação aos cuidados com a saúde, os órgãos oficiais anualmente têm campanhas para a prevenção da saúde como a denominada Agosto Azul, que tem como objetivo a necessidade da manutenção de hábitos saudáveis, com a alimentação balanceada e a prática periódica de exercícios físicos. Nesta campanha é desenvolvida uma série de ações para incentivar o homem a mudar hábitos e lembrar dos cuidados da saúde constantemente, através de atitudes simples, que podem ter impacto direto na qualidade de vida, do trabalho e na longevidade. Já, em relação à saúde da mulher, existe o Outubro Rosa, com programação voltada à prevenção do câncer de mama, bastante relevante por se tratar de uma das principais causas de morte feminina.

No caso dos policiais civis e militares é importante lembrar a existência da Lei 15.448, de 15 de janeiro de 2007, que dispõe sobre exame psiquiátrico em policiais civis e militares que se encontram na ativa. Essa lei prevê que todos os servidores dessas categorias são obrigados, a cada 12 meses, a passar por uma junta de três profissionais: médico, psicológico e assistente social para avaliação e constatação da capacidade laborativa para exercerem suas funções. Traz também, no seu bojo todas as restrições e regulamentação para comportamentos considerados anormais.

Esta lei, ao que se sabe, por enquanto só existe no papel. Além disso, falta conscientização sobre a necessidade de submissão a esses tipos de exames, por ignorância ou desconhecimento dos próprios policiais,. Muitos oferecem resistência e quando se comenta a respeito, as frases que se ouvem são sempre as mesmas: “Não sou louco nem sofro de insanidade mental” para passar por esses exames. Não entendem a importância de ser avaliado para, se constatado algum tipo de anomalia ou doença, procurar tratamento de forma preventiva. Não obstante isso, é de bom alvitre que todas as instituições ligadas à segurança pública promovam também o preparo psicológico no período que antecede a aposentadoria, pois muitos policiais que durante a sua vida laboral não se preocuparam em obter outros conhecimentos e modos de vida como lazer e maior convivência familiar, quando se aposentam são passíveis de depressão e ficam vulneráveis aos diversos tipos de vícios que, lamentavelmente, reduzem a sua longevidade. É uma cultura que deve ser modificada através da informação e apoio dos órgãos institucionais porque o que a população quer é segurança com qualidade eficiência e um policial preparado e saudável consegue transmitir mais confiança, inclusive para si, para a instituição e sua família!


** João Carlos da Costa – Bel. Químico, Professor, Bel. Direito, Policial Civil.

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